João Paulo Moço Em 12 - fevereiro - 2010

“Muito embora percamos todos os nossos bens, conservemos intacta a honra.”
por Walter Scott

Quantos de nós, neste exato momento, se encontram lamentando a perda de suas propriedades, de suas posses? Casas, carros, empregos, relacionamentos…; a lista é bem numerosa. Mesmo diante da destruição de tudo que temos, devemos lutar pela preservação de nossa dignidade. Ela, que nos faz merecedores da consideração geral, um verdadeiro sinônimo de grandeza. Um tesouro imensurável!

Como apoio a esse pensamento podemos citar as sábias palavras de Walter Scott, que resume de maneira genial: “Muito embora percamos todos os nossos bens, conservemos intacta a honra”.

Diferente da maioria dos valores, esse sentimento não é alcançado em momento algum da vida. Ele faz parte de nossa natureza. A questão que o envolve não é adquiri-lo, mas sim mantê-lo por toda existência. Exatamente como Arthur Schopenhauer nos alerta: “A glória deve ser conquistada; a honra, por sua vez, basta que não seja perdida.”

Iconografia do túmulo que repousa no Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, Portugal, exibindo o aio de D. Afonso Henriques

Iconografia do túmulo que repousa no Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, Portugal, exibindo o aio de D. Afonso Henriques

Nessa luta de manutenção, um grande exemplo foi Egas Moniz!

Esse nobre homem ajudou o Conde D. Henrique a vencer inúmeras batalhas. Como recompensa por sua bravura, recebeu algumas terras, o Castelo de Lamego e foi nomeado aio (preceptor) do único filho homem do Conde, de nome Afonso.

Egas cuida do menino como se fosse um de seus filhos. Logo, a criança se torna um forte e valente rapaz. Vendo isto, seu pai o arma cavaleiro.

Em ano de 1127, D. Henrique já havia morrido e o Rei de Castela invade o Condado Portucalense. Destroça povoados e toma muitas terras. Cerca Guimarães, ameaçando toma-la. Ele não aceita a emancipação do Condado da tutela de Castela e exige o juramento de obediência da Regedora (D. Teresa de Castela, sua prima) e do herdeiro Afonso.

A capital tentou repelir o cerco. Mas, não obteve sucesso. Seus elementos de ataque eram inúteis contra forças tão numerosas. Os recursos defensivos iam se esgotando, assim como os víveres.

É frente a esse cenário aterrador que Moniz toma a famosa decisão: sai para a praça, dirige-se à tenda do Rei castelhano, em nome da Regedora e de seu filho, para jurar-lhe vassalagem! Eis as palavras que ele suplica em voz alta:

“Levantai o cerco. Poupai nossas fazendas e nossas vidas, tão precisas nos fossados contra a mourama. E eu vos juro, por minha palavra honrada, em nome do Infante, de quem sou aio, que D. Afonso Henriques, mal herde o condado, vos pagará o tributo de feudatário, comparecendo nas vossas Cortes de Leão, sempre que as convocardes”.

Dado como penhor a palavra de honra, o Rei Afonso VII levantou o cerco e partiu.

Passado pouco tempo do ocorrido, Afonso Henriques revoga o pacto jurado, retoma várias praças galegas e invade a Galiza!

Egas Moniz, após essas ações, sente-se indigno de viver e deseja ainda honrar sua palavra de lealdade. Vai até o Rei Afonso VII, de corda no pescoço, com a mulher e os filhos. À porta do Palácio, com todo o povo daquela terra assistindo, pede a audiência do Rei.

O Monarca convoca os grandes do Reino para aconselha-lo e o recebe na sala do trono, pronto para julgar o “traidor”. Na presença da Corte, o Rei pergunta:

- Que quereis de mim?

A Corte presenciava os penitentes descalços e tristes. Os filhos choravam demais, agarrados aos pais!

Moniz respondeu ao Rei com essas palavras:

“Como deveis saber o Infante D. Afonso Henriques meu amo e meu pupilo quebraram o pacto que selei na vossa tenda no arraial de Guimarães, com a minha palavra honrada. Menti, senhor Rei de Castela e Leão. E porque menti, para resgate da honra violada, aqui me tendes a entregar-vos a vida e a vida da mulher e filhos”.

Afonso VII levanta e saca a espada, mas os fidalgos da Corte travam-lhe o ímpeto, comovidos. O Monarca é tomado de piedade e logo perdoa aquele homem tão honrado, mandando-o em paz.

Assim como Egas Moniz, lutemos com todas as forças para a manutenção da grandeza! Nademos contra a maré atual, que tem este valor como abolido! Mostremos ao mundo que, mesmo perdendo muitas posses, ainda somos homens ricos; por preservarmos nossa riqueza natural: a honra!


Meu nome é João Paulo e, mesmo diante de muitas perdas, defendo a minha honra, tendo-a como alicerce fundamental para a reconstrução!

Sobre João Paulo Moço:
João Paulo é licenciado em Matemática, professor da rede estadual de ensino e pós-graduando em Docência no Ensino Superior.
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