Carlos Magaldi Em 23 - junho - 2010

Certa vez, em meio a uma entusiasmada conversa sobre política entre alguns amigos da universidade, eu aprendi uma valiosa lição, uma lição que busco por em prática sempre que possível e necessário. Trata-se de um simples ato, o de se colocar na primeira pessoa.

Como bem sabemos, as pessoas verbais são:

1° Pessoa do Singular = Eu;
2° Pessoa do Singular = Tu;
3° Pessoa do Singular = Ele;

1° Pessoa do Plural = Nós;
2° Pessoa do Plural = Vós;
3° Pessoa do Plural = Eles.

Mas o que tem a lição de Língua Portuguesa da tia Cotinha do primário em relação com a lição que aprendi com meus amigos universitários?

Nós todos | © Darko Draskovic

Nós todos | © Darko Draskovic

Explico. Em meio a nossa conversa falávamos dos mandos e desmandos da política de nosso país e da corrupção que assolava a gestão pública. Um de meus amigos liderava a discussão, com duras frases contra a corrupção do governo e também contra a omissão e ignorância do povo, dizendo, entre outras coisas, frases como:

- Todos os políticos são corruptos!

- O povo é omisso e conivente com a corrupção!

- Os políticos mantém o povo cativo da ignorância, e o povo, dela parece gostar!

A grande maioria concordava com suas idéias. Foi quando um rapaz de outro curso que passava por ali, ouvindo tais palavras, resolveu se pronunciar. Direcionando-se de forma incisiva ao entusiasmado orador do grupo e dotado de uma feição de poucos amigos, questionou:

- Qual é o seu nome?

- “Renato”, disse o líder do grupo, com uma feição tão bravia quanto a de seu questionador.

- Pois bem Renato, se você estivesse no poder, teria feito melhor?

O silêncio tomou conta de todos e Renato pela primeira vez gaguejou, pela primeira vez mostrou dúvida em sua voz e em seu olhar. Mas para não ficar mudo perante ao seu grupo, ensaiou o início de uma defesa, dizendo:

- Veja bem meu caro, qualquer um faria melhor do que esses corruptos que estão no poder, afinal…

Subitamente Renato foi cortado pelo rapaz, que mais uma vez de forma incisiva falou:

- Mas eu não perguntei a qualquer um, eu perguntei a você Renato, você faria melhor? Faria? Sim ou Não?

Espantado, Renato tentou iniciar uma argumentação, dizendo:

- Bom, para isso seria necessário, inúmeros fatores… Veja bem, eu precisaria de apoio político e também…

Novamente Renato fora interrompido pelo seu algoz, que insistiu:

- Faria melhor Renato?

Sem ter como escapar de um questionamento tão direto, Renato disse com em voz baixa, mas com credulidade no olhar:

- Sim eu teria feito melhor.

Nesse momento, o outro rapaz, de forma complacente disse:

- Eu acredito em você Renato, perdoe-me se fui duro ou indelicado, mas o meu objetivo era o de demonstrar o quão difícil uma situação se torna quando a colocamos na primeira pessoa, quando dizemos “Eu” ao invés de “Ele”, quando falamos “Nós” no lugar de “Eles”. Fazemos parte desse país e possuímos uma parcela de culpa, tanto em seus problemas quanto em suas soluções. Se temos o direito de criticar, temos também o dever de propor soluções, se algum dia se colocar como opção a um cargo de gestão pública e mantiver sua convicção de que pode fazer melhor, de que ao menos o tentará de forma sincera, pode contar com o meu voto.

Naquele dia eu percebi, que frente a muitos problemas que nos cercam, preferimos o comodismo e a facilidade de atribuir a culpa e a obrigatoriedade de solução dos mesmos a terceiros, agindo como se não estivéssemos inseridos realmente no problema. Deveríamos falar e pensar sobre os problemas nos colocando na primeira pessoa, gerando, assim, identidade e responsabilidade em relação a eles.

Chega um momento em que mais importante do que encontrar o culpado por quebrar, é saber quem esta disposto a parar e consertar.

Meu nome é Carlos Magaldi, e acaso eu não for parte da solução é porque estarei sendo parte do problema. O que pretendo evitar.

Sobre Carlos Eduardo:
Carlos Magaldi Carlos Magaldi é formado em Ciência da Computação, Pós-Graduado em Finanças Públicas e atualmente cursa a faculdade de Ciências Econômicas, é interessado por Política, Economia e Relações Humanas de um modo geral. Gosta de ler bons livros e assistir a bons filmes. É casado e busca de forma incessante a evolução pessoal e profissional através do acúmulo de conhecimentos.
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2 Comentários

  1. Walisson disse:

    Discussões sobre problemas sociais, humanos, se vêem em muitos lugares…
    E os conhecimentos que viemos adquirindo por anos e anos de estudos? Para quê servem se não para intervir na sociedade, na vida? Estamos aprendendo a erradicar ou a reproduzir os problemas? Quantas vezes já colocamos a cabeça no travesseiro e pensamos como acabar com os problemas amanhã? Como não deixá-los crescer a cada dia?

    Atribuir ao próximo é simples, portanto, façamos! É simples, barato e não dói. Tomar responsabilidades pesa, custa caro e há possibilidades de dor.

    Me baixa a autoestima ver tanto conhecimento sendo disperdiçado. Anos e anos, pra quê? Pra quê mesmo? Fazer dinheiro?

    Não vamos falar de problemas apenas por falar, vamos falar deles pensando, trabalhando nas maneiras de combatê-los.

    Alguém aí ainda se importa?

    O que buscamos é ser/estar feliz, e como é possível pensar em felicidade quando não se releva os problemas? Aquilo que nos coloca muitas vezes pra baixo…

    Enfim, ótimo texto, Sr. Magaldi. Já deve saber que sou fã dos seus textos. Parabéns!!

    Abraço.

    Walisson Gomes.

  2. Obrigado pelo seu comentário Walisson, fico feliz que tenha gostado do texto. Posso dizer que também gostei muito do seu comentário, muito mesmo. Saber que existem pessoas com tal capacidade de visão sobre o mundo a nossa volta é algo revigorante, seu comentário teve uma importância ímpar nesse momento meu amigo, bem maior do que você possa imaginar, muito obrigado mesmo.

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